Olhar a meio pau, olhos ardentes, sensação de cansaço, difícil concentração, bocejos freqüentes, peso na cabeça e astenia, é tudo culpa de uma noite de insônia. E, embora exista quem a cultive, como regra é muito chata.
A perda do sono natural e fisiológico, ocorre por muitas causas. A conhecida insônia pode estar ligada a quadros de depressão e a situações de ansiedade transitória ou crônica. Já o idoso, normalmente, dorme menos. Bem como tal ocorre em resposta a situações que ocupem sobremodo o funcionamento consciente ou inconsciente de nossa mente. Assim, um assunto diurno que tenha chamado a atenção de nosso cérebro, que tenha mexido com as emoções, poderá levar a nossa mente a reagir com um pesadelo, com um sonho cheio de envolvimento e ansiedade; ou ainda, mesmo depois de conciliarmos o sono, voltarmos à vigília e assim permanecer até o amanhecer. Tudo por pura excitação, a qual é causada por sobrecarga dos circuitos cerebrais.
E como funciona? Regularmente, em muitos setores das nossas vidas, o funcionamento é cíclico; por exemplo, o ciclo menstrual, o ciclo do humor - triste ou eufórico – e o ciclo da fome, entre outros. Pois, também é cíclico o nosso relógio biológico, onde está incluída a alternância de sono e vigília. Pois a regularidade de todos eles é extremamente necessária ao bom funcionamento do organismo.
A alternância do sono/vigília e da vigília de forma que se possa chamar de fisiológica, é feita por uma estrutura nervosa reguladora que localiza-se no tronco cerebral, conhecida por ”substância reticular ascendente”, a qual, além de um compasso próprio, recebe estímulos de outras regiões do cérebro, do córtex frontal e do hipocampo, principalmente das memórias recentes aí localizadas, que estimulam a vigília. E é nesta região do tronco cerebral e em sua alteração onde somos vitimados pela insônia.
Embora queixas de uma noite sem dormir – ou duas, ou várias – ocasionalmente sejam pranteadas e que sejam relatos comuns de consultório, gostaria de tecer algumas considerações a essa ”desdita“ condição.
Que me reconheça, na vida, desde a juventude, mas nunca de forma doentia, passei por inúmeras fases com esse tipo de alteração do sono, é verdade que fisicamente incômoda; no entanto, convivi com elas como sendo grandes momentos de contemplação interior, de análise das minhas circunstâncias de vida e donde retirei grandes decisões de vida. Quanta poesia fiz, com múltiplas direções e quantas rimas retirei do sono ausente! Quantas vezes recoloquei nos trilhos minha vida descarrilada no bendito silêncio da noite, quanto mais longo mais produtivo! Quanto perdão e quanta reza me aproximou de Deus neste “infortúnio”! Quanta decisão bem pensada me brindou esse pseudo-desconforto! E sei que neste aproveitamento, igual a muitos leitores, não estou sozinho. Como se não bastasse, pergunto-lhes, desde o início do mundo, quanta criação nasceu das malhas deste silêncio?
Tempos atrás visitei uma feira de inventores; ao ter a atenção voltada para uma janela que era de correr e de abrir ao mesmo tempo – além de poder ser totalmente removida para ser pintada – disse-me o inventor ao falar sobre um detalhe fundamental do invento: ”isso me fez perder muitas noites de sono”! Viram?
Pois na saída e naquele entardecer, ocorreu-me um a fato desagradável: fui abalroado por uma moto - sem danos materiais ou pessoais – dirigida por um jovem trabalhador no seu primeiro emprego e com carteira de habilitação probatória. A única avaria é que a moto do seu patrão ficou sem ignição, o que o obrigou a chamar seu superior. A associação dos seus fatos produziu no rapaz uma extrema intranqüilidade, principalmente por possíveis desfechos, um deles o de vir a perder a carteira. Ambos tínhamos culpa e ambos éramos inocentes, havíamos sido juntados pelas circunstâncias. Mesmo assim o jovem, sentindo-se desprotegido pediu-me que lhe fizesse companhia e que esperasse seu patrão; o que não fiz, visto que ficaria tarde e tinha junto a minha família. Naquela noite e nas duas seguintes, curti uma insônia. Naquele episódio havia se esfumado em mim – do que me arrependia – uma virtude chamada solidariedade
sábado, 16 de agosto de 2008
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