quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mas continuamos a morrer

Semana passada, escrevi aqui o quanto a morte está cada vez mais domada, via avanços do nível sócio-econômico, da ciência em geral e da tecnologia, aplicadas pela medicina, pelas políticas públicas e pela difusão na mídia e publicações as mais variadas sobre como cuidar do corpo e de sua saúde.
No entanto, tirante as doenças comuns de estação, as sazonais, os hospitais continuam cheios de pacientes que, à rigor, não precisariam exatamente estar ali. Tudo por que não acreditam na prevenção, ou por que acham que aquilo que se sabe que pode acontecer, só vai acontecer com o vizinho, mas não consigo.
As ciências da saúde, em especial a medicina preventiva e a medicina convencional, sabem, hoje, com absoluta segurança, o quê causa o quê, na saúde humana em geral.
Simplificando, a medicina, atualmente, sabe que tal doença que se apresente em um paciente foi produzida por um agente causador, o mais das vezes, evitável, ao longo da sua vida pregressa. Até mesmo a maioria das doenças genéticas e as hereditárias já podem ser detectáveis e atendidas a tempo e são infinitos, tanto os exemplos quanto os casos clínicos evitáveis que nós médicos atendemos.
Quase tudo tem relação de causa e efeito. E graças ao auxílio da mídia e das publicações científicas, cada vez mais disponíveis nas bancas de revistas e nos programas científicos em canais apropriados , sabemos os riscos que, tanto o corpo humano, como o meio ambiente onde ele vive, corre durante tal e qual exposição e por quanto tempo.
Tomemos como exemplo três agentes causadores de muitas enfermidades que estão por trás da maioria dos óbitos: o tabagismo, a hipertensão arterial e a obesidade. Tal é sua importância no que se refira ao mal que causam ao corpo e sua saúde que, se num exercício de imaginação, nós pudéssemos retirar dos consultórios, dos hospitais ou das UTIs aqueles pacientes que lá estão, por causa desses fatores, estes ambientes estariam sempre com meia lotação.
O hábito do cigarro está relacionado com doenças do aparelho circulatório, a muitos tipos de câncer nos mais variados órgãos, à insuficiência respiratória, a fetos mal gerados, a dores na coluna e a um sem número de doenças oxidativas que enferrujam o organismo, envelhecendo-o precocemente. Nunca esquecendo de citar a velha impotência sexual, fato que qualquer fumante com ao redor de cinqüenta anos já sabe (sofre, mas esconde).
A hipertensão arterial, uma doença insidiosa, que trabalha como um cupim, se não for tratada com o rigor que merece, leva a acidentes vasculares cerebrais - isquemias e derrames - , à insuficiência cardíaca, renal e arterial em toda a economia do organismo. Uma doença presente em um assustador número de atestados de óbito, como agente inicial causador da morte.
E por último, os gordos. Esses, para começar, além das muitas doenças a que estão sujeitos, como diabete, a própria hipertensão arterial e sua cascata, maior trabalho cardíaco, alguns tipos de câncer, como o de mama, por exemplo, colesterol elevado, depósito de gordura nas artérias, doenças articulares (joelhos, tornozelos e coluna vertebral), são mais difíceis de serem examinados, por motivos óbvios. Mais difíceis de serem manipulados pela enfermagem e são, também, mais difíceis de operar. Enfim, os gordos, muitos deles naturalmente muito alegres e simpáticos por natureza, são difíceis até para carregar, depois de mortos. Não fossem aqueles modernos carrinhos que agora são usados para levar o féretro, a maioria dos gordos só teria público em seus velórios mais para o início desse. Duvidam? Pois, perguntem aos coveiros o que eles sentem quando têm que colocar um gordo numa sepultura dessas que ficam no andar de cima..... (é, literalmente, o que se chama de “peso morto”)
E a maioria destas são doenças evitáveis ou controláveis, se tratadas com o rigor merecido, com convencimento, determinação e disciplina, inclusive com a troca ou abandono de hábitos.
Cá pra nós, com tantos cuidados preventivos disponíveis ao saber geral e incluindo medicação gratuita na rede pública, hoje em dia morre quem quer! Salvo ignorância a respeito dos riscos ou atitudes relapsas.
Aliás, a ciência já descobriu que o nosso corpo, como uma máquina que é, é feito para durar até 120 anos. Depois, seria só a transição! www.josebrasilteixeira.med.br