A depressão é uma doença insidiosa ou aguda, que se manifesta de forma variada em seus sintomas, de modo evidente ou velado ao longo da vida. Estima-se que 20% por cento da população mundial, ou tem, teve ou terá episódios depressivos ou a doença clássica - também conhecida como depressão maior - em um dado momento de suas vidas. Nem sempre evidente na forma mais cruel de mundo arrasado, podendo enganar a seus acometidos por toda uma vida, bem como aos médicos, mesmo experientes, se não estiverem atentos para a possibilidade da ocorrência ou concomitância com outra patologia clínica eventual.
As mulheres, em proporção de duas para cada homem, por sua condição hormonal e da ainda relativa submissão cultural, padecem mais freqüentemente da doença ou dos sintomas depressivos. É facil observarmos, pois, sintomas desta ordem no período da menarca, na submissão cultural da adolescência em algumas famílias conservadoras, nos fracassos das primeiras experiências amorosas, nos casamentos sem amor ou precipitados, no período da gravidez, no período puerperal (depressão e/ou psicose pós-parto), por perdas cumulativas da vida afetiva e, finalmente, na menopausa e pós-menopausa. Evidente, estas não são causas obrigatórias, mas que favorecem a instalação do quadro mórbido. E estas perdas afetivas, os insucessos ambientais, podem exercer um efeito desencadeante igualmente nos homens. Existe uma tendência genética, familiar, para a depressão, basta que se verifique a incidência de duas comorbidades comuns à depressão em alguns membros de uma mesma família, o alcoolismo e o número de suicídas em um mesmo grupo familiar.
No entanto, uma pessoa com tal tendência é capaz de atravessar toda uma vida convivendo em um ambiente estável, de poucas perdas e de relativo sucesso, sem evidenciar a doença. Mas, algumas vezes, nasce-se deprimido, é possível; são crianças que desde a gestação podem mostrar-se hipoativas no ventre materno, choram muito e sem motivo aparente desde o período neonatal e na primeira infância, brincam sós, tem difícil motivação e riem pouco, com escassa adapatação social e rendimento intelectual inferior. Seus sintomas físicos principais são os dirtúrbios de sono, a falta de amadureciemnto no controle dos esfíncteres e o temperamento dependente, carente. Se somarmos à essa condição natural um ambiente onde o mal maior é a ameaça da segurança infantil, através da ruptura dos laços familiares, por exemplo, pais que não se acertam e que estão em contínuo processo de litígio explícito, tais condições alimentam a instalação dos sintomas depressivos na infância, bem como as mais variadas desestrutras de família. E como a criança não sabe expressar seu desconforto anímico com palavras claras ou argumentos, apresenta queixas simbólicas, como distúrbios de sono, poliqueixas, mau rendimento escolar, hiperatividade, tristeza, mau desenvolvimento físico e, em algumas situações agudas, como viagem dos pais ou a perda afetiva do seu cãozinho, de uma avó ou babá, apresentam até febre sem infecção.
É costume chamar-se a depressão de "o portal da morte". Em matéria de negativismo, verdadeiramente, a depressão é muito parecida com a ausência de vida; nela a preciosa individualidade da alma perde o sentido, o entorno se desvanece, o azul do céu torna-se cinza e a alegria passa a ser triste. E a forma mais viva de vida de uma mente, que é a criatividade, some e a vida passa a ser um pesado fardo diário e crônico. Por isso, o entusiamo pelo presente e as boas perpectivas de futuro desaparecem, é a deseperança. E como a libido é a forma biopsicológica mais potente das forças humanas, homens e mulheres deprimidos desinteressam-se pelas atividades ligadas à conquista e ao sexo; ou passam a exercê-las de forma complicada, insatisfatória e doentia, como em algumas perversões.
De forma didática e eloqüente, o luto pela perda de um familiar querido é o exemplo mais claro de estado depressivo. No período desta vigência triste, a pessoa afetada envolve-se muito em uma vivência mórbida, perdendo o interesse pelas situações do entorno, não querendo falar, não querendo ver, preferindo o isolamento, desinteressando-se pela higiene pessoal e por seu aspecto físico. Perde o apetite e os motivos vitais; e a manifestação maior da dor é o choro contristado, além de uma particular falta de perspectiva imediata pela vida. Tal é o luto, um quadro clássico de tristeza, muito semelhante à depressão emocional. No entanto, o luto é uma manifestação fisiológica da nossa mente, um sentimento normal embora doloroso, vivenciado eventualmente por mentes sãs e acaba por ser uma experiência emocionalmente útil. Embora o luto possa tornar-se patológico, como veremos adiante, passados alguns meses, gradativamente a pessoa enlutada vê diminuida a sua tristeza e dor e os sintomas mórbidos vão desanuviando-se. E, lentamente, a tristeza no trato da memória da perda passa a dar lugar à lembranças agradáveis e relação ao ente perdido e este ocupa então um outro lugar na escala dos sentimentos com menos percepção dolorosa. Assim é o normal.
Quanto ao luto patológico, diz-se daquele estado mórbido que ganha contornos magnificados, algumas vezes sem a depressão explícita, mas com grande repercussão emocional e física, inclusive chegando o enlutado patológico ao extremo de atentar contra a vida; são suicídios ou tentativas ocorridas na vigência de estado de luto recente ou não, mas mal resolvido. Ou mesmo, o desenvolvimento de patologias físicas adquiridas após uma perda grave: diabetes, hipetensão arterial, enfarto do miocárdio, formas de câncer e qualquer outro padecimento físico adquirido por luto mal resolvido, em nível subconsciente.
Além do luto, este como uma forma extrema de depressão transitória, outras circunstâncias ambientais e adventícias podem proporcionar uma vivência similar. Situações comuns do dia-a-dia, como a derrota de seu time do coração, o insucesso em um exame vestibular ou outro concuros importante, um acidente com danos materiais com seu carro novo, uma traição afetiva, um divórcio, um arrombamento de casa, a perda de um emprego ou qualquer outra importante frustração de expectativas, podem exercer efeito cumulativo, com o mesmo efeito de perdas afetivas e influir em um estado depressivo. E se houver predisposição, na dependência de caracteres individuais, desenvolver a enfermidade com um caráter que chamamos de exógeno, por vir de uma origem externa. Dentro desta linha, se quisermos poderemos chamar a depressão genética de constitucional ou endógena; ou propriamante de depressão-doença.
Mas, nem sempre a depressão apresenta-se sob a forma clássica e com seus sintomas mórbidos conhecidos. Algumas pessoas passam uma vida inteira doentes sem que se faça um diagnóstico e sem que elas dêem-se conta de que aquilo que se traduz em conformidade com a infelicidade e uma vida de desmotivação, uma verdadeira coleção de insucessos e deseperança, na verdade, é uma depressão não clássica que chamamos de "doença depressiva mascarada". Pessoas assim acometidas apresentam sintomas crônicos nebulosos, como perda de memória, dificuldade de concentração, tristeza, irritabilidade, perda do impulso sexual, distúrbios de sono, modificação do apetite, sensação de sentir-se inadequada, astenia, agitação psicomotora, desesperança, dores crônicas jamais diagnosticadas em sua origem e de difícil tratamento, além de hipocondria e que transformam o ato de viver em carregar a vida como se fosse um peso desconfortável. Estas podem ser, e com freqüência o são, pessoas deprimidas de forma velada, às quais os médicos, generalistas ou não, deverão estar atentos, pois se não tratarem o estado emcional junto aos sintomas e às doenças clínicas concomitantes, jamais curarão seus pacientes. Até porque, estas pessoas, em busca de conforto e solução, migram por diferentes médicos em busca de um socorro que não atentam qual exatamente é ou qual o verdadeiro alvo, no caso, a depressão velada.
Por fim, é necessário acrescentar-se que a neurociência moderna prorporciona vasto conheciemnto sobre a biopatologia da depressão. Áreas do cérebro são anatomicamente envolvidas no seu disfuncionamento, como a cortex anteroinferior e os núcleos da base, onde se formam as emoções. Doenças físicas, como os acidentes vasculares cerebrais com lesões anteriores no hemisfério direito, bem como a enfermidade de Parkinson, relacionam-se com freqüência a esta patologia do humor e do afeto.
Além do quê, existe uma bioquímica, cuja disfunção está bem esclarecida nesta entidade, com deficiência de função das substâncias neurotransmissoras.
Por isso, além do tratamento psicológico e psiquiátrico da entidade, torna-se tão claro o auxílio da reposição medicamentosa no tratamento isolado ou coadjuvante, com freqüente sucesso.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
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