sábado, 31 de maio de 2008

Transferência de vida

Transferência de vida

Há mais de 2 anos atrás, em afortunada oportunidade, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul organizou e patrocinou, através de especialistas da área, um Simpósio Nacional de Células Tronco. Ocasião em que os numerosos assistentes, que lotaram as dependências de seu salão de atos, puderam observar duas conclusões surpreendentes: o estágio avançado em que se encontrava o uso terapêutico das diferentes células desta linhagem primitiva, também em nosso meio, bem como as excelentes perspectivas sobre sua expansão futura. E a convicta posição da religião católica, contrária às pesquisas com células tronco embrionárias.
Defendia a religião, através de seus representantes, que um embrião desde a sua concepção e de sua primeira multiplicação celular, já tem vida e identidade genética; que mesmo congelado por mais de três anos e desprezados - e até esquecidos - pelos seus autores biológicos, ele tem vida em potencial, sendo portanto intocável e inviolável, se não que para sua finalidade primária e única, evoluir para a complementação da vida. Nesse particular, de lá para cá, nada mudou. Mas, será que existe uma alma embrionária, ela, a arqui-essência da vida na visão católica. Será?
Será que uma tela, pincéis, bisnagas de tinta e a presença inerte do artista se traduzem, potencialmente, em uma obra prima, por si só? Será que a vida do embrião não lhe foi transferida desde os espermatozóides e do óvulo - ou óvulos, que também são seres vivos? E que os primeiros, morrem aos milhões, contribuindo apenas com enzimas que darão redenção a um único a atingir o estágio seguinte de vida, a fecundação?. Será a natureza anti-ética neste proceder? Ou seja, a morte de tantos espermatozóides vivos e guerreiros? E será a ética imutável? Ou a ética, necessária e indiscutível, acompanha apenas os fatos consumados e é criada à reboque destes? Ou será que a alma não só se instala com a consciência humana e com ela evolui e cresce, como uma entidade independente da vida orgânica, como na neurociência já existem indícios? Ou como acredita o espiritismo, ciência, filosofia e religião, por exemplo.
Até a alguns anos atrás, como no Simpósio também foi abordado, morte significava a parada dos batimentos cardíacos e dos movimentos respiratórios; hoje, com o inequívoco diagnóstico de morte cerebral e os recursos da ciência, um morto em potencial ainda é capaz de transferir vida e qualidade dela a muitas pessoas ao mesmo tempo. Porque? Por que o conceito de vida mudou, mudando também a ética que o regia. E mudou o tempo em sua impermanência dos fatos e suas conseqüências.
No contraditório à posição convicta da Igreja, como pode não ser possível enxergar que a ciência de hoje - muito longe dos tempos em que Copérnico teve que omitir seus conhecimentos durante toda uma vida, em que Galileu foi condenado por acreditar em um óbvio conhecimento novo, enquanto bruxas eram massacradas - é a mesma: a surpreendente e inovadora ciência, mas muito mais sábia!? Como, além dos antolhos, não enxergar que a manipulação dos embriões com a finalidade de cura de múltiplas enfermidades, apenas redireciona e transfere suas vidas potenciais a muitos condenados à morte!?
Como o assunto é momentoso, face à posição animadora do Superior Tribunal Federal ao liberar as pesquisas, até então entravadas, sob os protestos das entidades católicas, há o que se refletir. Primeiro, comemorar-se as novas perspectivas que a ciência adquiriu de forma legal de promover a vida ou a melhoria da qualidade dessa para uma infinidade de pacientes. O que virá a ocorrer aos poucos; imagina-se que dentro de 10 anos teremos disponíveis esses avanços a um público mais universalizado. Segundo, se nada mudou na opinião da Igreja e como não há mais Inquisição nos moldes da Idade Média, podemos perceber que ela própria, a Igreja, está acendendo suas próprias fogueiras e imolando-se. Pergunta-se: nesses mais de 2 anos de posição inarredável, quantos fiéis terá ganho a religião católica com sua opinião contrária à transferência de vida, via pesquisa com células tronco embrionárias, e quantos fiéis abandonaram seus bancos, pelo mesmo motivo?