terça-feira, 22 de abril de 2008

A relação com o paciente

Todo o médico deveria entender que aquela pessoa que lhe adentra o consultório é um ser globalmente doente, no corpo e na alma. Independente do grau de conhecimento ou desconhecimento que possuem um do outro, os primeiros contatos, a começar pelo visual e seus desdobramentos, seguido do que o médico vai ouvir e como vai ouvir, incluindo o nível de atenção dispensado ao enfermo e a importância dada as suas queixas, por banais que sejam, os dez minutos iniciais da consulta são os mais fundamentais na possível cura da enfermidade que os aproxima. Por que é o tempo em que se forma a empatia e, ao mesmo tempo, a confinça.
Os médicos não aprendem em uma disciplina na faculdade como portar-se de forma a provocar confiança, a ponto de seu comportamento influir em um desfecho positivo; habitualmente, nada vai além dos conhecimentos científicos.
Mas, sendo a medicina uma arte, ela depende primeiro de intuição; ou seja, por conseqüência, o bem que é transferido ao doente em atitude automática pelo facultativo. Além do que, ela depende do que o médico possa aprender na prática e no aprendizado científico. Por esse binômio alguns médicos relacionam-se melhor e outros de forma pior com seus pacientes, o que resulta em consultórios mais cheios, os dos confiá-veis, e outros mais vazios, os daqueles que só tem nome pelo grande ou mesmo escasso conhecimento.
É de bom tom, na promoção da relação em questão, receber o paciente em pé, apertar-lhe a mão, olhá-lo nos olhos e chamá-lo por seu nome; escutar a sua queixa com interesse e atenção e valorizar tudo, até coisas que pareçam fúteis. Pois, é com uma boa história, bem conduzida de ambas as partes, que se faz a maior parte dos diagnósticos. Mas, não só por isso, pois é nesta fase que se estabelece, também, a relação mútua de simpatia. E, é nesse ponto da consulta que surge, ainda, a empatia do médico pelo seu doente, o sentir o que o paciente sente, sentimento esse tão fundamental no ato de curar. Principalmente, levando-se em conta que todas as doenças, embora orgânicas, possuem um componente emocional mais ou menos intenso, como causa ou como coadjuvante. Sem nunca esquecer uma norma fundamental: que um paciente posto a vontade para falar, via de regra, nestes dez minutos iniciais de entrevista, coloca o médico ao par da sua maior angústia, quase infalivelmente.
Por outro lado, a doença é uma quebra da integridade da pessoa antes saudável; somente isso, além da eventual enfermidade orgânica em si, é o suficiente para torná-la apreensiva, com o humor em baixa e um sentimento de flancos vulneráveis. É com esta possibilidade de doença psicossomática ou somatopsíquica que o médico trabalha, quase sempre uma entidade desconhecida da pessoa sã, que de súbito foi assaltada e que a transformou em refém. E tal, inconscientemente, representa uma gradação da morte; lá na ponta, é o que representa a doença em termos amplos, a morte. Então, o médico deve ser sabedor que é com este quadro e na ajuda desta luta contra um grau de morte, e a angústia que isto trás, que ele trabalhará sempre.
É necessário ter consciência, também, ainda que existam pacientes consultadores crônicos, que a maioria dos que chegam a um consultório médico, o fazem com um certo esforço; pois, uma pessoa mentalmente sã não tem prazer de ir a médico ou de entrar em hospitais; uma evidência que aumenta mais ainda a necessidade da boa relação proporcionada pelo médico. E é preciso ter-se em mente que, se o médico convive com o conhecimento genérico ou especializado das enfermidades, aquele paciente que ele tem diante de si é alvo, de regra, de um grande desconhecimento; e que, embora o médico saiba o que possa ser o vir- a- ser do paciente, a este tudo é névoa. E o desconhecimento leva à fantasiaa qual, no particular, nunca é boa e esta o leva ao medo; quando não ao pânico.
E toda essa situação ameaçadora, muitas vezes, é traduzida em um choro sem dor física. É que nem sempre o paciente chora por dor ou depressão, mas o faz, sim, por que tudo nele se transformou em um desamparo promovido pela surpresa da enfermidade.
E é nesta preciosa relação que o médico deve tanto amparar quanto curar.