terça-feira, 22 de abril de 2008

Entrando pelo tubo nicotinoso.

Tempos atrás, a justiça indeferiu um pedido de indenização feito pelos familiares de um fumante, no qual pretendiam ligar a sua causa mortis ao hábito crônico do cigarro. Dado o momentoso assunto, aflorou na mesma época a notícia de que no Brasil existem ao redor de 60 outras sentenças semelhantes, livrando as empresas fabricantes de cigarros. Pelo mesmo motivo, foi feita naqueles dias uma enquete com ao aproximadas 700 pessoas, sobre o acerto ou não da dita decisão judicial, quando 83% responderam que concordavam com a justiça.
O vício é antes de tudo uma tendência anormal da mente humana: o homem vicia-se em pata de cavalo, em baralho e em álcool obedecendo a mesma necessidade mental que o faz usar loló, maconha, nicotina ou cocaína. E outros atos ou substâncias com o mais variado poder de viciar , depois do ato inicial, mental e compulsivo. Para, depois deste, então, viciar-se também quimicamente, se for o caso.
Assim, no caso do cigarro em particular, ele atrai o indivíduo em ato socialmente charmoso e demosntrando segurança, movido quase sempre por compulsão e acaba, também, por aprisionar o fumante entre as muitas substâncias químicas da nicotina. Restando, com o passar do tempo, uma situação quase fora de controle, automática e que escapa ardilosamente das soluções da vontade.
Há 40 anos atrás, devido ao elevado grau de desinformação sobre os malefícios do uso crônico do cigarro e sua vinculação causal com o câncer de pulmãoo, diagnóstico do falecido da postulação em questão, talvez a decisão da justiça então fosse outra. O doente, talvez, naquele tempo, poderia ter sido considerado um iludido pelo fabricante. No entanto, lá, a ciência ainda não havia difundido suas pesquisas. As quais, gradativamente, foram ganhando o conhecimento dos médicos de todo o mundo, como também foram sendo absorvidas pela cultura popular. Não só a respeito de câncer de pulmão, como também sobre uma centena de malefícios orgânicos, a maioria deles sob outras formas de câncer letais ou altamente limitantes. Sem falar na brochura.
A cultura hoje é outra, chegou-se ao ponto de um fumante ter de quase se humilhar para conseguir um lugar onde lhe seja permitido fumar. E mesmo assim o vício o submete, sem que todas estas restrições lhe despertem uma pergunta de porquê é assim, ou a tomada de um ato inteligente mais forte que a dependência. O que as restrições fazem nada mais é do que atender as exigências da proteção da maioria não fumante e de quebra sugerir ao fumante uma revisão dos seus conceitos.
Hoje, as notícias dos malefícios são tão difundidas que até mesmo os fabricantes, por lei ou não, aderiram à sua difusão, o que lhes retira a responsabilidade judicial, transferindo exclusivamente as conseqüências ao usuário, o que justifica a decisão que deu início a esta crônica.
Aliás, tal quadro não é somente quanto ao tubo nicotinoso; existe hoje um grau muito grande de informação disponível ao potencial usuário de muitas coisas ou possuidor dos mais diversos comportamentos perigosos à vida, que só os usa ou tem quem acredita distorcidamente que vai ser o único a ser levado de compadre pela verdade dos fatos, em ato veladamente suicida. Quem freqüenta uma UTI sabe que, diariamente, mais de um sobe aos céus, ao setor de fumantes e outros dependências celestiais contaminadas.