terça-feira, 22 de abril de 2008

A doença como arma

Ainda que possa ocorrer em um ponto máximo no qual o pessoa simula uma doença para com ela auferir vantagens sobre as circunstâncias ou circunstantes, não é incomum que, na vigência real de uma doença física, um paciente aumente e/ou prolongue o sofrimento manifesto para se beneficiar além dele, ou seja, mesmo que o sofrimento corresponda`a queixa, procure obter, como proveito, maior atenção do entorno a sua dor em si.
Para começar, qualquer mãe e qualquer avó sabe que iste pode acontecer desde a tenra idade, quando crianças. Por lactentes que sejam, percebem a ansiedade de quem as atende na ausência da mãe, com freqüência a avó e, o mais das vezes faz uso de seu pretenso desconforto para ganhar o calor de um “colinho”, a atenção que vem com este gesto, o conforto etc.
Não raro, crianças pequenas adoecem frente ao trauma da ausência brusca da mãe ou dos pais, mudam de comportamento e até febre têm nesta circunstância. Nestes casos, pode-se atribuir tal fato a um episódio de insegurança pela perda, a qual pode levar a um quadro de depressão transitória, o que não enquadra-se exatamente dentro do tema proposto, mas tem com ele participação. E, então, o desfecho do quadro poderá levar a uma situação de culpa por parte de quem se ausentou, o que a criança aprenderá que, para não ter mais a má experiência bastará simular os sintomas, que na primeira vez eram reais e deram certo. E, neste caso, o ganho secundário será até maior, pois culmina, às vezes, com o cancelamento de uma possível nova ausência por parte dos pais. E, aí, é a vitória! Assim começa o domínio do ambiente, que vai se tornar cada vez mais doentio e cada vez mais rebuscado com o passar dos anos; é o início da manipulação.
Fingir qualquer dor( fator subjetivo) para transferir um compromisso, a aula por exemplo, é coisa comum, tão comum que todo mundo faz ou fez. Mas, a medida que a personalidade amadurece e que junto amadurecem as capacidades e as limitações do indivíduo, associadas às dificuldades de dominar o ambiente ou não, é possível que esta arma secreta, apreendida em criança e desenvolvida na sedimentação da personalidade, até com certo grau de maquiavelismo e/ou sadismo, vá fundir-se na pessoa, de cuja conduta será parte integrante; junto a atos deprimidos e/ou dominadores.
Forma-se uma pessoa que, na vida diária, usará de recursos extras para barganhar, muitas vezes em forma de um carinho; do qual, na realidade, tem carência.
A estrutura mental de pessoas assim, é de tal forma ardilosa e envolvente , que habitualmente existe por trás dela uma família acostumada a atender aos seus pleitos, sentem-se pressionadas a isso e sob seu manejo corre na volta e faz coisas impossíveis para satisfazê-la e, também, por isso, o desvio de conduta progride.
Não raramente uma pessoa assim pode adoecer de verdade, mas seu sintoma será sempre mais intenso que o mesmo em outros pacientes, com difícil remissão e pode internar em um hospital. A queixa mais comum é a dor ou um desconforto – que só ela quantifica, algo quase sempre mal definido; e por causa disso é comum que já tenha consultado mais de um médico antes do presente. As características de sua patologia são nebulosas, o diagnóstico é impreciso, principalmente, se a sintomatologia maximizada engana o médico. E isto é algo que o paciente quer, que está acostumado a conseguir e, sendo que o que deseja é prolongar a internação e o cortejo de familiares ansiosos à sua volta, sente mórbido prazer com a internação.
O tratamento, via de regra, pressionado pela prolongada queixa e pelo sofrimento demonstrado, é sintomático e não causal, visto que a queixa é urdida para ser um diagnóstico impreciso. E , como a melhora que a família espera nunca vem e, porque, para a ou o paciente, muito tempo com um mesmo profissional pode levar ao seu desmascaramento, é comum que ocorra a troca de médico, recomeçando o ciclo e prolongando a manipulação. !!