terça-feira, 22 de abril de 2008

A culpa médica

Muitas vezes, quando trato neste espaço de um assunto que me preocupa e incomoda o espírito, tal funciona como uma espécie de psicoterapia por escrito. Talvez porque consiga, ao escrever, alinhar os fatos, dar a minha versão para mim mesmo e para os leitores, na esperança de obter um julgamento mais ameno, que até poderá não vir, mas a esperança, da qual também vivemos, fica lançada e age em mim.
A boa relação médico-paciente deve ser sempre uma relação oriunda da competência dele em primeiro lugar, acrescida do bem estar emocional que o paciente e seus familiares sintam com aquele médico e do trato que este dê ao resto do "todo" do doente, que também adoece e que são as suas emoções, o seu psiquismo.
Há algum tempo, eu tratava uma senhora ao redor de 85 anos e com razoável boa forma física, por problemas neurológicos, mais específicamente ansiedade e depressão e para o quê estava medicada. Fazia já uns 6 meses que não a via, quando em um belo sábado pela manhã fui contatado pela filha por telefone, talvez a mesma que a acompanhava às consultas, queixando que a paciente estava com mal estar no peito e que havia levado a mesma para verificar a pressão arterial, estando esta realmente elevada, perguntando-me se eu poderia visitá-la naquele momento. Meu carro estava na oficina, motivo pelo qual argumentei não poder atendê-la de imediato. Argumentei também que pelos sintomas e pelo fato da paciente nunca antes ter estado hipertensa, que o caso era mais para um cardiologista e não para a minha especialidade, a neurologia. Mas, com intensão de ajudá-la, sugeri que a paciente tomasse um diurético de ação rápida, o mais comum de todos e me coloquei óbviamente às ordens. A meia tarde fui novamente contatado, quando soube que a paciente havia saído para verificar a pressão e que continuava com a mínima acima de 100 mm de hg e como ainda não haviam consultado o cardiologista, receitei, então, um antihipertensivo de primeira linha, um destes que qualquer hipertenso já tomou sem problemas e até 3 vezes por dia. Mandei, assim, que a paciente tomasse 1(um)comprimido e que me avisassem mais tarde. No início da noite daquele sábado, fui avisado que, mesmo com tempo ruim e chuvoso, haviam levado a paciente para verificar a pressão novamente e que ainda estava alta, motivo pelo qual, já bastante a contragosto pela consulta telefônica, receitei mais 1(um)comprimido do antihipertensivo corriqueiro.
A 1 hora da manhã de domingo a filha me chamou no pronto socorro, dizendo que a paciente estava lá, pois tinha sido encontrada caída. Mesmo achando que o caso ainda seria cardiológico, como desde um princípio, levantei-me da cama e com chuva e frio, fui até o PS. Lá chegando, senti de imediato a agressividade da família contra mím, como se eu fosse o culpado da doença ou pelo quadro. O que se tornou mais evidente quando um outro familiar disse que aquilo havia sido culpa dos comprimidos antihipertensivos dados para tratar a pressão alta, como se na situação prévia houvesse um outro jeito. A paciente estava gemente, obnubilada, antes havia queixado dor no peito e vomitado, já havia sido atendida pelo clínico e verificado que naquele momento estava com a pressão baixa. E estava sendo atendida pela enfermagem. Constatando que realmente era um quadro cardiológico, provávelmente um enfarto, e sentindo a agressividade e a imputação de culpa dada a mim, chamei um deles em particular e disse que aquele quadro era provavelmente um enfarto e que chamassem um cardiologista que estivesse de plantão e me retirei. Aliás, sem receber nem muito obrigado por levantar numa madrugada, com frio e chuva e por mais um dia inteiro de telefonemas, no dia anterior.
Na manhã seguinte, cedo e de folga, ainda fui acordado com um chamado, talvez de uma outra filha, dizendo que a mãe não tinha tido enfarto, ou seja, dando a entender que eu, neurologista, havia errado o meu diagnóstico cardiológico de suposição e que ela ainda achava que tudo havia sido culpa dos remédios que eu havia receitado. E completou com um grosseiro: "Animal!!!", antes de desligar.
Esqueceram-se os familiares que eu não sou cardiologista e que, também, se eu não havia podido ir já no primeiro chamado, que deveriam ter procurado um médico certo. Ou então que, se saíram com a doente duas vezes durante o dia para verificar a pressão, uma destas vezes com chuva, se esta ainda estava alta, deveriam ter procurado o pronto socorro, que está aberto sempre e que é o lugar certo para urgências. Que mesmo eu dizendo que não poderia visitar a doente desde o primeiro contato e se na minha primeira intervenção, não havia logrado êxito, obviamente que não era eu o indicado para tratá-la.
E, por fim, esqueceram-se os familiares que a simpática velhinha contava naquele instante 85 anos e mais os seus riscos naturais de "chuvas e trovoadas" desta idade. Mas não, eu fiquei de culpado na história e isso não mudará nunca, não adianta explicar. Ainda bem que alguns de vocês me entendem. Obrigado.