terça-feira, 22 de abril de 2008

Clonagem e sociedade

Quando em 1997, na Grã-Bretanha, noticiou-se com um alarde impactante, pelo inusitado do fato, a clonagem da ovelha Dolly, com detalhes simples e de fácil absorção polular sobre as possibilidades da técnica, criou-se de imediato no imaginário mundial leigo a pergunta de como seria, um dia, uma clonagem humana. Como a imaginação é livre, as mais variadas respostas foram dadas às diversas variações desta pergunta. Invariavelmente, acompanhadas de um fator comum, o medo de tal descoberta. Fruto do desconhecido, este sentimento velado ou explícito pautou as fantasias da sociedade, quase sempre em sua exrpressão máxima: o quê mãos inescrupulosas poderiam fazer criando pessoas idênticas, ou até mesmo exércitos delas e manipulando a vida?
A marcha da ciência e o conceito exemplar por ela adquirido como parceira do homem é inexorável. Por tal, as conjeturas e hipóteses, ainda que incompletas, mas amadurecidas ao longo do tempo de lá até os dias atuais, fizeram com que o impacto da recente notícia da clonagem de embriões humanos tenha tornado essa realidade menos surpreendente que o que foi imaginado por ocasião do empreendimento inaugural deste avanço formidável. Pelo simples fato de que a sociedade leiga e científica de uma forma ou de outra já esperava por esse dia. A ponto da cultura televisiva ter transformado em assunto de convívio e domínio público o clone de um ser humano no dia-a-dia do expectador brasileiro; e daí, pouca coisa faltará para ser um fato corriqueiro.
Movida pela curiosidade e pela criatividade, vocacionada pelo progresso da humanidade, a ciência é uma semi-deusa, em cujo caminho de uma só mão vai seguindo em direção à Criação e aproximando-se da condição divina e perfeita. Muitas vezes, é verdade, assustando os homens ao longo de sua trilha bem intencionada. Acaso não foi assim, polêmica, quando do primeiro transplante de coração pelo Dr.Barnard? E depois de outros tantos órgãos, em atitude logo tornada comum e especialmente salvadora? Ou não terá sido igual com o advento da cirurgia plástica reparadora ou estética, que tantas novas caras criou servindo também ao mal, como agora se teme e mexendo profundamente com a natureza?
Fala-se em uma nova condição, em uma nova ordem de valores e em uma nova moral. Pois crie-se novos fatos, uma nova moral e uma nova ética será criada para balisá-la! Criada e conduzida pelos pensamentos mais elevados de homens superiores, igual ao que ocorreu com a ética nos exemplos anteriores citados.
Quanto ao risco irreal de que as personalidades do clone e do ser que lhe deu origem sejam iguais, tal não ocorrerá. Apenas a fração genética da mente terá as mesmas características físicas como nos gêmeos univitelinos, mas o produto final do psiquismo do clone séra diferente, uma vez que será reacional a um ambiente distinto do primeiro.
Como também, sob o ponto de vista metafísico e religioso, especula-se se um ser criado pela técnica da clonagem terá uma alma. Claro que terá alma, prova irrefutável que, sendo esta realmente obra de Deus, que Ele se põe de acordo com semelhante proceder. É o seu carimbo! E que não se crucifixe mais os cientistas clonadores ou muito menos se os faça arder em modernas piras inquisicionais.
Talvez, seja esta uma oportunidade do homem manipular a vida, em redenção. Já que manipular a morte é uma arte na qual ele tem sido um mestre.