Tudo que depende de criatividade, bom gosto e muito trabalho, tudo o que produz coisas boas e boas sensações aos nossos sentidos e ao nosso corpo se pode chamar de arte. E tudo que depende de pesquisa, observação, metodologia, experimentação, comprovação e que produz o progresso da humanidade, se pode chamar de ciência. Pois então a medicina é uma arte, porque depende de qualidades pessoais, manifestas, evidentes e imponderáveis de seus aplicadores, os médicos, as quais podem ser transmitidas, copiadas e ensinadas, mas que, quase sempre, se reservam o direito de serem melhor evidenciadas no autor que exercê-la. Ao mesmo tempo a medicina é, também, uma ciência. Dotada em primeiro lugar pelo maior princípio que faz progredir a ciência e que é a existência da dúvida na cabeça dos seus pesquisadores. Partindo daí, esses mesmos se entregam à investigação, à experimentação e à observação com métodos específicos, chegando, depois de muita comprovação, às conclusões científicas. E, porisso, além de arte, a medicina é também uma ciência e esta, no âmbito geral, é a mais sólida escora do progresso da humanidade sob o ponto de vista dos cuidados biológicos que lhe são pertinentes.
O exercício da medicina é dotado de um amadurecimento milenar e que ao longo da gradação dos séculos veio adquirindo cada vez mais distancia do ato simples de curar sem se saber como e porque, via curandeirismo, e se tornando cada vez mais próximo da arte do saber mais comprovado e eloqüente, via ciência. Esta, independente da arte ou a que setor da vida humana sirva, é dotada de princípios que são por demais rígidos na sua evolução, desde o experimento, passando pelos testes e acabando nos enunciados e teorias que autorizam as suas aplicações práticas. É um longo e sério caminho percorrido, que por fim estará se responsabilizando por uma verdade científica, que será tão durável quanto a velocidade do aparecimento de uma próxima descoberta que suplante a anterior, mas nunca se antecipando a ela.
As investigações científicas ligadas ao corpo humano e todas as ciências setoriais que dele se servem para progredir e que nele atuam buscando a sua saúde e sua manutenção, produzem toneladas de publicações científicas, anualmente. Deste total, provavelmente, sobre o sistema nervoso e mais especificamente sobre o cérebro, que é o mais desconhecido dos nossos órgãos, é que se publica o maior volume de descobertas. Então, paralelamente a isso temos que, se o cérebro é o mais desconhecido, é também sobre ele que temos sempre os mais novos conhecimentos à disposição e que, logicamente, deveria exercer uma ação mais cativante sobre a comunidade cultural. Justamente pela via científica que ampara estas descobertas.
No entanto, com toda a seriedade que é a referida ciência, exercida comumente com arte por seus executores, a neurociência e a medicina, neste cantado inicio de milênio, que no fundo, para a maioria, não é mais que uma mera troca de calendário, assiste amiúde a uma assombrosa e pretenciosa concorrência de uma avalanche de "ismos" que se atribuem dotes curativos sobrehumanos, exercendo concorrência enganosa por seus feitos ilusórios em quem lhes dá um ingênuo crédito e relegando a maior manifestação do intelecto coletivo humano, a própria ciência, a ser uma mera espectadora boquiaberta, em muitos casos.
Um médico, via de regra, depois de ingressar na faculdade através do concurso mais disputado do país(e porisso mesmo mais dificultoso), demora seis anos de sua vida, ou aproximadamente 22000 horas de estudo regular para se formar e ao fim do curso ter condições de ser, hoje em dia e tão somente, um bom clínico ou um bom cirurgião geral. Mas, no entanto, se quiser seguir e exercer qualquer especialidade, atualmente, um médico ainda necessita de mais, no mínimo, dois anos de estudo em serviço especializado(quando não, mais tres, quatro ou cinco anos) para obter o título de especialista, sem contar o contínuo aperfeiçoamento que deverá ter durante a vida profissional. E tal circunstancia é produto da constante produção de novas técnicas e novos e volumosos conhecimentos que se derramam sobre a área médica e suas ciências afins ou decorrentes.
E isso tudo ocorre porque é assim que se forma uma conduta que exige seriedade e solidez científica para o exercício de uma arte que lida com a vida humana e com a qualidade de vida, via saúde mental e física. Sendo assim, é possível se perguntar, que outro ramo do conhecimento humano, julgado seriamente e com sabedoria, é capaz de cuidar da vida humana em melhores condições que a medicina, uma ciência palpável e conhecida, provada e comprovada com métodos rígidos, sérios e científicos?
Há algum tempo, o Dr.Luigi di Bella, um médico italiano que se tornou famoso mundialmente por difundir um método alviçareiro de cura do câncer, acreditamos até que com boa intenção e com todo o respeito que nos mereceram os seus cabelos brancos e seus mais de oitenta anos, mas era um método sem base científica, que acabou ruindo por não resistir à uma investigação acurada e baseada na metodologia da ciência. Uma pena, mas é assim que se preserva a vida humana, com seriedade e, principalmente, com comprovação e explicação lógica dos fatos.
Todas essas são verdades inarredáveis, ainda que saibamos que existe muita coisa que ainda escapa ao conhecimento de outras possíveis verdades. Mas a ciência em questão não dorme, são milhares de cabeças debruçadas em microscópios pelo mundo a fora, outros tantos milhares de pensadores a elaborar questões e na busca permanente de respostas, numa verdadeira pulverização de centros de treinamento. E, por isso, é que os milagres se tornarão cada vez mais raros e as curas de forma desligada de causa e efeito vão desaparecer, gradativamente.
Anos atrás se teve conhecimento de uma pesquisa feita em UTIs, onde se encontravam o mesmo tipo de doente e com patologias semelhantes, nas quais, numa se fazia uso da medicina convencional e noutra usava-se a mesma terapia, associada à oração e à fé. Sendo que, nestas últimas, a melhora dos pacientes era mais rápida e duradoura, fato para o qual não se tinha explicação, além do poder teórico e milagroso da própria fé. Passados alguns anos, hoje se sabe por comprovação científica, que a fé produz no organismo, mais específicamente no cérebro, um estado de positividade inversa da depressão, que produz, por sua parte, endorfinas ou hormônios cerebrias que ativam as suas funções, reforçando as defesas e favorecendo a cura. Pois, assim como esta, outras verdades estarão sendo descobertas, acredite-se ou não e saberemos então, gradativamente, que os milagres existem, mas que são de aparecimento involuntário e aleatório e que com o progresso da ciência, existirão cada vez menos deles como tais. E se descobrirá também que, quando da sua ocorrência, se fazem às custas de forças que Deus colocou dentro de cada um de nós e com as quais um dia saberemos lidar mais lucidamente, sem mistérios.
É uma questão de tempo e tudo assim se provará, com o trabalho e o progresso da investigação científica, para desespero dos enganadores da fé pública, onde grassa o faturamento polpudo. Ainda que esse processo terá que se ver diante das dificuldades de contrariar as leis que regem a eterna convivência do "vivo" e do "trouxa".
Especificamente sobre o cérebro, como ocorrem as coisas e como se encaixam no nosso assunto? O cérebro é constituído de neurônios, suas unidades celulares, em número estimado de mais de 10 a 13 bilhões deles, que se ligam entre sí, anatômicamente, através de prolongamentos destas células, os dendritos, que são braços que se esticam para alcançar o neurônio seguinte ou até à distância. Apenas o número de dendritos, ou braços da célula nervosa, são em número infinitamente superior, ou seja, muitos dendritos para uma mesma célula nervosa, chegando aos trilhões e a capacidade do cérebro, em velocidade e eficiência, seja intelectual ou em outras capacidades, está ligada a quantidade destas ligações, que é variável e multiplicável ao longo dos diversos aprendizados a que se submete.
Sob o ponto de vista fisiológico, ou de funcionamento da estrutura anatômica cerebral, entretanto, a eficiência da transmissão nervosa se dá às custas de substâncias que se formam no próprio cérebro. Estas atuam nestas junções entre as células e que se chamam neurotransmissores, os quais transformam essa transmissão numa função bioquímica, através destes "hormônios" cerebrais, dos quais os principais são a noradrenalina, a serotonina e a dopamina.
Esta é a base unitária, anatômica e fisiológica do cérebro. E é aqui que ocorrem as desregulagens deste motor cerebral, cuja exteriorização é a mente e que se transformam em doenças cerebrais e mentais, onde eventuais modificações na captação dessas substâncias neurotransmissoras, no seu excesso, na demora da sua liberação ou do seu acúmulo na junção, que se produzem doenças psiquiátricas. A depressão, as psicoses, o transtorno obsessivo-compulsivo, a doença bipolar e outras graves doenças do humor ocorrem assim.
E só têm uma maneira de serem tratadas, é através do especialista em psiquiatria, que ministrará medicamentos que irão agir nas referidas junções cerebrais para recolocar a regulagem da transmissão em dia. Só ele sabe disso, pois estudou a bioquímica do sistema nervoso e a ciência de tratar essas patologias por, no mínimo, dois anos em hospitais e ambulatórios com muitos doentes mentais.
E se uma pessoa está com modificação do humor, tristeza, modificação do apetite, desesperança, irritabilidade, com manias diferentes, com alteração no rítmo de sono, alteração no hábito alimentar e ganhando peso ou perdendo peso inexplicávelmente, com distúrbio de memória e concentração, é possível que esteja enquadrada numa destas patologias e que só pode ser diagnosticada pelo especialista. Como se fosse uma deficiência no motor de seu carro e que você leva no melhor mecânico, ou uma dificuldade elétrica em sua casa que você chama o eletrecista, leva o relógio no relojoeiro, o sapato no sapateiro e assim por diante.
A medicina em nossa região, mercê da evolução e dos avanços da ciência e da tecnologia, acompanha, embora de forma limitada pelo meio, esses avanços. Estão aí os diagnósticos e as cirurgias endoscopicas, a investigação por tomografia, o mapeamento cerebral computadorizado, os estudos ecográficos e seus derivados para estudos dinâmicos em artérias, o concurso efetivo das mais variadas especialidades médicas, enfim, um sem número de melhoramentos estruturais e profissionais que não existiam há médio ou há pouco tempo.E que vieram na esteira incessante da evolução da busca do diagnóstico e do mais correto tratamento. Pois, malgrado esses esforços, daquí, como de todas as partes do Brasil(e também do mundo, pois ser ingênuo é um defeito humano universal. Se não, vejamos o que diz Martin Fierro: "El vivo vive del sonso y el sonso de su trabajo".), assistimos pasmados ao avanço dos engodos dos disque 0-900, onde fantoches e andróginos estão a oferecer curas enganosas, ainda que essas possam, em alguns casos, estar dentro de cada um sem necessidade desses "especialistas". Como também assistimos ao assalto, como se provado fosse, da mais variada literatura sensacionalista e considerada da moda, como a tal de auto-ajuda, para casos que só a psiquiatria ou a intuição clínica, realmente, pode ajudar e que nunca resolve coisa nenhuma neste patamar.
Bem com, assistimos aos eventos onde milhares de enganados acompanham o concorrido espírito dos “ Fritz” alojar-se na carcaça de qualquer pelêgo (e existem muitos ao mesmo tempo e com o mesmo espírito)de conversa convincente a iludir desesperados. Sem esquecer, por último, as seitas semeadoras do medo que pregam o bondoso Deus de todos nós como se fosse um feitor que castiga impiedosamente o mal antes de entendê-lo e que subjugam cegos fiéis dos quais retiram vultuosas somas enquanto os mesmos esperam por milagres que nunca vêm e por um Cristo que nunca virá.
E assim, às vezes até curam, na maioria das vezes doenças que de per se curariam espontaneamente e ainda que não se discuta o proveito que esses salafrários tiram da capacidade intrínsica de cura que existe pelo poder do próprio doente e que eles creditam às suas façanhas mal explicadas. "E dele a passar a sacolinha!".
Lamentavelmente, como a medicina e os procedimentos ortodoxos muitas vezes demandam custos e demora e porque, muitas vezes, a natureza oferece aos cuidados da medicina convencional patologias de difícil ou inexistente solução e como o mistério que envolve, por exemplo, uma atraente terapia de vidas passadas, outra pasmaceira, que pode ser provada pela ciência convencional como sendo a ocorrência de memória genética e que já vem gravada no cérebro.
E do que faz parte também o inconsciente coletivo de Jung, é que se produz estupendo fascínio nos menos avisados e imediatistas.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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