terça-feira, 22 de abril de 2008

Carro velho e usado

Às custas de alguns abnegados, muitas cidades possuem clubes de colecionadores de carros antigos e aqui em Bagé não é diferente. São conjuntos de numerosos a discretos, constituídos de unidades das mais variadas marcas e procedência, as quais encantam a todos mas, principalmente, àquelas pessoas que um dia conviveram com uma dessas máquinas. E em cujas mentes existem algumas lembranças de vivências que vêm à tona com a sua simples visão. São máquinas “estalando” em seu estado geral, de apresentação primorosa por seus donos e em muito melhor condição de uso que qualquer outro carro da mesma idade. É fácil concluir-se o porquê de suas performances: trata-se de máquinas que foram bem cuidadas a vida toda e nas quais a prevenção do desgaste prematuro, através dos mais diferentes cuidados especiais, foi a regra de seu dono. Daí a boa forma das máquinas em questão, quando do seu envelhecimento.
Os meus já muitos anos de prática médica em consultório, obrigaram-me a criar metáforas às quais recorro para tornar meus argumentos melhor compreendidos por meus pacientes interlocutores. Fato, aliás, à que a prática médica de outros colegas deve recorrer da mesma forma, cada um a seu jeito.
Em se tratando o nosso corpo como se fosse uma máquina que se desgasta, sendo portanto perecível ao logo do tempo, tenho usado para a finalidade já expressa, a comparação deste com uma máquina comum que envelhece. E aos olhos, ouvidos e entendimento do paciente, a figura mais próxima ao propósito da comparação é o carro. Comparando-o a um carro novo e o seu rendimento, com os cuidados que lhe são prestados durante um período longo de vida e, finalmente, com um carro velho e usado e seus problemas.
Assim, quando quero explicar ao paciente o que ocorre com o envelhecimento do seu corpo, lanço mão desta metáfora que muito tem auxiliado. Assim, em um carro novo somos capaz de colocar seis pessoas, carregá-las em alta velocidade por uma longa estrada esburacada, subir repechos sem ouvir ringidos ou barulhos na lataria, sem furar pneus, viajando de forma confortável, sem aquecimento anormal do motor, sem usar muitas mudanças de força, com segurança nas curvas e com os faróis de bom rendimento. É claro que se este carro for bem cuidado durante a sua vida útil, o seu desgaste será menor e seu envelhecimento será menos marcado.
Se o problema do paciente for relativo aos discos da coluna, por exemplo, comparo o seu envelhecimento com o uso( e o mau uso) prolongado das borrachas de um amortecedor, que, como na coluna, desgastam-se pelo uso prolongado ou pelo mau uso. Se o problema for cansaço ao subir uma escada, devido à insuficiência cardíaca, por exemplo, comparo-o com o motor que não pode mais levar a mesma carga que quando era novo. E desse modo vou tentando me explicar.
Assim, se você é um carro velho, já não poderá mais levar as mesmas seis pessoas que levava, a estrada não poderá mais ser esburacada por que a suspensão já não agüenta, os pneus carecas estarão sujeitos a furar, a velocidade deverá ser baixa para não ferver o motor, há que ter cuidado com os faróis opacos pelo tempo, etc. E, em tempo, cuidado ao se meter com determinadas curvas.....!