doenças

sábado, 16 de agosto de 2008

Insônia

Olhar a meio pau, olhos ardentes, sensação de cansaço, difícil concentração, bocejos freqüentes, peso na cabeça e astenia, é tudo culpa de uma noite de insônia. E, embora exista quem a cultive, como regra é muito chata.
A perda do sono natural e fisiológico, ocorre por muitas causas. A conhecida insônia pode estar ligada a quadros de depressão e a situações de ansiedade transitória ou crônica. Já o idoso, normalmente, dorme menos. Bem como tal ocorre em resposta a situações que ocupem sobremodo o funcionamento consciente ou inconsciente de nossa mente. Assim, um assunto diurno que tenha chamado a atenção de nosso cérebro, que tenha mexido com as emoções, poderá levar a nossa mente a reagir com um pesadelo, com um sonho cheio de envolvimento e ansiedade; ou ainda, mesmo depois de conciliarmos o sono, voltarmos à vigília e assim permanecer até o amanhecer. Tudo por pura excitação, a qual é causada por sobrecarga dos circuitos cerebrais.
E como funciona? Regularmente, em muitos setores das nossas vidas, o funcionamento é cíclico; por exemplo, o ciclo menstrual, o ciclo do humor - triste ou eufórico – e o ciclo da fome, entre outros. Pois, também é cíclico o nosso relógio biológico, onde está incluída a alternância de sono e vigília. Pois a regularidade de todos eles é extremamente necessária ao bom funcionamento do organismo.
A alternância do sono/vigília e da vigília de forma que se possa chamar de fisiológica, é feita por uma estrutura nervosa reguladora que localiza-se no tronco cerebral, conhecida por ”substância reticular ascendente”, a qual, além de um compasso próprio, recebe estímulos de outras regiões do cérebro, do córtex frontal e do hipocampo, principalmente das memórias recentes aí localizadas, que estimulam a vigília. E é nesta região do tronco cerebral e em sua alteração onde somos vitimados pela insônia.
Embora queixas de uma noite sem dormir – ou duas, ou várias – ocasionalmente sejam pranteadas e que sejam relatos comuns de consultório, gostaria de tecer algumas considerações a essa ”desdita“ condição.
Que me reconheça, na vida, desde a juventude, mas nunca de forma doentia, passei por inúmeras fases com esse tipo de alteração do sono, é verdade que fisicamente incômoda; no entanto, convivi com elas como sendo grandes momentos de contemplação interior, de análise das minhas circunstâncias de vida e donde retirei grandes decisões de vida. Quanta poesia fiz, com múltiplas direções e quantas rimas retirei do sono ausente! Quantas vezes recoloquei nos trilhos minha vida descarrilada no bendito silêncio da noite, quanto mais longo mais produtivo! Quanto perdão e quanta reza me aproximou de Deus neste “infortúnio”! Quanta decisão bem pensada me brindou esse pseudo-desconforto! E sei que neste aproveitamento, igual a muitos leitores, não estou sozinho. Como se não bastasse, pergunto-lhes, desde o início do mundo, quanta criação nasceu das malhas deste silêncio?
Tempos atrás visitei uma feira de inventores; ao ter a atenção voltada para uma janela que era de correr e de abrir ao mesmo tempo – além de poder ser totalmente removida para ser pintada – disse-me o inventor ao falar sobre um detalhe fundamental do invento: ”isso me fez perder muitas noites de sono”! Viram?
Pois na saída e naquele entardecer, ocorreu-me um a fato desagradável: fui abalroado por uma moto - sem danos materiais ou pessoais – dirigida por um jovem trabalhador no seu primeiro emprego e com carteira de habilitação probatória. A única avaria é que a moto do seu patrão ficou sem ignição, o que o obrigou a chamar seu superior. A associação dos seus fatos produziu no rapaz uma extrema intranqüilidade, principalmente por possíveis desfechos, um deles o de vir a perder a carteira. Ambos tínhamos culpa e ambos éramos inocentes, havíamos sido juntados pelas circunstâncias. Mesmo assim o jovem, sentindo-se desprotegido pediu-me que lhe fizesse companhia e que esperasse seu patrão; o que não fiz, visto que ficaria tarde e tinha junto a minha família. Naquela noite e nas duas seguintes, curti uma insônia. Naquele episódio havia se esfumado em mim – do que me arrependia – uma virtude chamada solidariedade

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Vencendo a morte

Vencendo a morte
A morte, certamente, é um dos fenômenos mais misteriosos à nossa consciência, mas, sobretudo, quanto à influência que exerce sobre a nossa inconsciência. Basta analisarmos que uma das mais potentes forças do ser vivo, a manutenção da vida, o seu resgate constante da possibilidade da morte, o fazemos continuamente e sem pensar. Alguém já disse que os vivos são cada vez mais comandados pelos mortos, o que é verdade, mas esse é um outro assunto, filosófico e quiçá verdadeiro na sua mais profunda acepção, a ser tratado em outra oportunidade, mas que tem sua desvenda cada vez próxima.
As crianças não sabem o que é a morte, os adolescentes não acreditam nela, o adultos a temem como uma coisa remota e a maioria dos velhos desdenham dela. Por um lado, a morte sempre foi um desconforto tal à consciência humana que, como defesa à concepção de finitude da vida, foi concebida a vida eterna na forma inicial de intuição, antes mesmo da concepção religiosa. O que a torna algo espontâneo na mente humana desde séculos, pois, muito antes de Deus andar semeando mundo afora os eventos de que fala a Bíblia e precedendo aos profetas mais confiáveis, existe uma certeza de que, após a morte, de alguma maneira, permanecemos vivos.
Foi assim desde as mais remotas culturas, a julgar-se pelos achados arqueológicos em que, espalhados pelas mais longínquas latitudes e em várias fases da história remexida da antigüidade e até na pré-história, em continentes diferentes e em épocas milenares e não tanto, foram encontradas oferendas e rituais reveladores da crença de uma possível vida após a morte, independente do grau de cultura.
Surpreendentemente, a ciência de hoje já contém em seus arquivos de descobertas científicas dados reveladores sobre esta possibilidade, como a suposta existência física de uma outra dimensão, paralela à nossa.
A verdade é que a filosofia e a ciência vêem amadurecendo conhecimentos que tornam a morte cada vez, no mínimo, mais distante e misteriosa, e até temida, menos fantasmagórica e mais vulnerável, conseqüência dos atos de semideuses modernos, os cientistas. Descontada a utópica e poética busca da eterna juventude – puro narcisismo - às custas de uma qualidade de vida ofertada pela condição de sermos uma civilização avançada e do desenvolvimento da medicina, via descobertas da ciência, estamos morrendo cada vez mais tarde em idade. Embora nos matemos de outras maneiras, milhões de mortos em guerras no último século e sem previsão de paz no atual, mera quimera. Por outro lado, ciências como a tanatologia estudam a morte em todas as suas relações físicas e metafísicas, tornando ao homem mais fácil vencê-la através do conhecimento. Entre seus recursos está, também, a criogenia, o congelamento de pessoas vivas por tempo indeterminado, à espera de soluções às maiores ameaças à vida. E sujeitas a descongelamento posterior, com volta ao convívio. Além da nanotecnologia, uma ciência que se vale de recursos ultramicroscópicos para, entre outras coisas, criar tratamentos a serem feitos a nível celular, como o conserto de moléculas doentes nos organismos vivos. A prevenção do seu envelhecimento acelerado e o adoecimento tecidual através da ação de substâncias oxidativas (enferrujantes dos vários tecidos) será uma de suas conseqüências.
Como vêem, estamos vencendo gradativamente a nossa maior inimiga, hoje quase agonizante. Pena que nem todos acreditem, muitos ajam contra, poucos tenham plena consciência destes avanços e que para alguns seja questionável o seu merecimento e benefício. Mas não tem volta, a morte está morrendo. www.josebrasilteixeira.med.br

Mas continuamos a morrer

Semana passada, escrevi aqui o quanto a morte está cada vez mais domada, via avanços do nível sócio-econômico, da ciência em geral e da tecnologia, aplicadas pela medicina, pelas políticas públicas e pela difusão na mídia e publicações as mais variadas sobre como cuidar do corpo e de sua saúde.
No entanto, tirante as doenças comuns de estação, as sazonais, os hospitais continuam cheios de pacientes que, à rigor, não precisariam exatamente estar ali. Tudo por que não acreditam na prevenção, ou por que acham que aquilo que se sabe que pode acontecer, só vai acontecer com o vizinho, mas não consigo.
As ciências da saúde, em especial a medicina preventiva e a medicina convencional, sabem, hoje, com absoluta segurança, o quê causa o quê, na saúde humana em geral.
Simplificando, a medicina, atualmente, sabe que tal doença que se apresente em um paciente foi produzida por um agente causador, o mais das vezes, evitável, ao longo da sua vida pregressa. Até mesmo a maioria das doenças genéticas e as hereditárias já podem ser detectáveis e atendidas a tempo e são infinitos, tanto os exemplos quanto os casos clínicos evitáveis que nós médicos atendemos.
Quase tudo tem relação de causa e efeito. E graças ao auxílio da mídia e das publicações científicas, cada vez mais disponíveis nas bancas de revistas e nos programas científicos em canais apropriados , sabemos os riscos que, tanto o corpo humano, como o meio ambiente onde ele vive, corre durante tal e qual exposição e por quanto tempo.
Tomemos como exemplo três agentes causadores de muitas enfermidades que estão por trás da maioria dos óbitos: o tabagismo, a hipertensão arterial e a obesidade. Tal é sua importância no que se refira ao mal que causam ao corpo e sua saúde que, se num exercício de imaginação, nós pudéssemos retirar dos consultórios, dos hospitais ou das UTIs aqueles pacientes que lá estão, por causa desses fatores, estes ambientes estariam sempre com meia lotação.
O hábito do cigarro está relacionado com doenças do aparelho circulatório, a muitos tipos de câncer nos mais variados órgãos, à insuficiência respiratória, a fetos mal gerados, a dores na coluna e a um sem número de doenças oxidativas que enferrujam o organismo, envelhecendo-o precocemente. Nunca esquecendo de citar a velha impotência sexual, fato que qualquer fumante com ao redor de cinqüenta anos já sabe (sofre, mas esconde).
A hipertensão arterial, uma doença insidiosa, que trabalha como um cupim, se não for tratada com o rigor que merece, leva a acidentes vasculares cerebrais - isquemias e derrames - , à insuficiência cardíaca, renal e arterial em toda a economia do organismo. Uma doença presente em um assustador número de atestados de óbito, como agente inicial causador da morte.
E por último, os gordos. Esses, para começar, além das muitas doenças a que estão sujeitos, como diabete, a própria hipertensão arterial e sua cascata, maior trabalho cardíaco, alguns tipos de câncer, como o de mama, por exemplo, colesterol elevado, depósito de gordura nas artérias, doenças articulares (joelhos, tornozelos e coluna vertebral), são mais difíceis de serem examinados, por motivos óbvios. Mais difíceis de serem manipulados pela enfermagem e são, também, mais difíceis de operar. Enfim, os gordos, muitos deles naturalmente muito alegres e simpáticos por natureza, são difíceis até para carregar, depois de mortos. Não fossem aqueles modernos carrinhos que agora são usados para levar o féretro, a maioria dos gordos só teria público em seus velórios mais para o início desse. Duvidam? Pois, perguntem aos coveiros o que eles sentem quando têm que colocar um gordo numa sepultura dessas que ficam no andar de cima..... (é, literalmente, o que se chama de “peso morto”)
E a maioria destas são doenças evitáveis ou controláveis, se tratadas com o rigor merecido, com convencimento, determinação e disciplina, inclusive com a troca ou abandono de hábitos.
Cá pra nós, com tantos cuidados preventivos disponíveis ao saber geral e incluindo medicação gratuita na rede pública, hoje em dia morre quem quer! Salvo ignorância a respeito dos riscos ou atitudes relapsas.
Aliás, a ciência já descobriu que o nosso corpo, como uma máquina que é, é feito para durar até 120 anos. Depois, seria só a transição! www.josebrasilteixeira.med.br

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Depressão

A depressão é uma doença insidiosa ou aguda, que se manifesta de forma variada em seus sintomas, de modo evidente ou velado ao longo da vida. Estima-se que 20% por cento da população mundial, ou tem, teve ou terá episódios depressivos ou a doença clássica - também conhecida como depressão maior - em um dado momento de suas vidas. Nem sempre evidente na forma mais cruel de mundo arrasado, podendo enganar a seus acometidos por toda uma vida, bem como aos médicos, mesmo experientes, se não estiverem atentos para a possibilidade da ocorrência ou concomitância com outra patologia clínica eventual.
As mulheres, em proporção de duas para cada homem, por sua condição hormonal e da ainda relativa submissão cultural, padecem mais freqüentemente da doença ou dos sintomas depressivos. É facil observarmos, pois, sintomas desta ordem no período da menarca, na submissão cultural da adolescência em algumas famílias conservadoras, nos fracassos das primeiras experiências amorosas, nos casamentos sem amor ou precipitados, no período da gravidez, no período puerperal (depressão e/ou psicose pós-parto), por perdas cumulativas da vida afetiva e, finalmente, na menopausa e pós-menopausa. Evidente, estas não são causas obrigatórias, mas que favorecem a instalação do quadro mórbido. E estas perdas afetivas, os insucessos ambientais, podem exercer um efeito desencadeante igualmente nos homens. Existe uma tendência genética, familiar, para a depressão, basta que se verifique a incidência de duas comorbidades comuns à depressão em alguns membros de uma mesma família, o alcoolismo e o número de suicídas em um mesmo grupo familiar.
No entanto, uma pessoa com tal tendência é capaz de atravessar toda uma vida convivendo em um ambiente estável, de poucas perdas e de relativo sucesso, sem evidenciar a doença. Mas, algumas vezes, nasce-se deprimido, é possível; são crianças que desde a gestação podem mostrar-se hipoativas no ventre materno, choram muito e sem motivo aparente desde o período neonatal e na primeira infância, brincam sós, tem difícil motivação e riem pouco, com escassa adapatação social e rendimento intelectual inferior. Seus sintomas físicos principais são os dirtúrbios de sono, a falta de amadureciemnto no controle dos esfíncteres e o temperamento dependente, carente. Se somarmos à essa condição natural um ambiente onde o mal maior é a ameaça da segurança infantil, através da ruptura dos laços familiares, por exemplo, pais que não se acertam e que estão em contínuo processo de litígio explícito, tais condições alimentam a instalação dos sintomas depressivos na infância, bem como as mais variadas desestrutras de família. E como a criança não sabe expressar seu desconforto anímico com palavras claras ou argumentos, apresenta queixas simbólicas, como distúrbios de sono, poliqueixas, mau rendimento escolar, hiperatividade, tristeza, mau desenvolvimento físico e, em algumas situações agudas, como viagem dos pais ou a perda afetiva do seu cãozinho, de uma avó ou babá, apresentam até febre sem infecção.
É costume chamar-se a depressão de "o portal da morte". Em matéria de negativismo, verdadeiramente, a depressão é muito parecida com a ausência de vida; nela a preciosa individualidade da alma perde o sentido, o entorno se desvanece, o azul do céu torna-se cinza e a alegria passa a ser triste. E a forma mais viva de vida de uma mente, que é a criatividade, some e a vida passa a ser um pesado fardo diário e crônico. Por isso, o entusiamo pelo presente e as boas perpectivas de futuro desaparecem, é a deseperança. E como a libido é a forma biopsicológica mais potente das forças humanas, homens e mulheres deprimidos desinteressam-se pelas atividades ligadas à conquista e ao sexo; ou passam a exercê-las de forma complicada, insatisfatória e doentia, como em algumas perversões.
De forma didática e eloqüente, o luto pela perda de um familiar querido é o exemplo mais claro de estado depressivo. No período desta vigência triste, a pessoa afetada envolve-se muito em uma vivência mórbida, perdendo o interesse pelas situações do entorno, não querendo falar, não querendo ver, preferindo o isolamento, desinteressando-se pela higiene pessoal e por seu aspecto físico. Perde o apetite e os motivos vitais; e a manifestação maior da dor é o choro contristado, além de uma particular falta de perspectiva imediata pela vida. Tal é o luto, um quadro clássico de tristeza, muito semelhante à depressão emocional. No entanto, o luto é uma manifestação fisiológica da nossa mente, um sentimento normal embora doloroso, vivenciado eventualmente por mentes sãs e acaba por ser uma experiência emocionalmente útil. Embora o luto possa tornar-se patológico, como veremos adiante, passados alguns meses, gradativamente a pessoa enlutada vê diminuida a sua tristeza e dor e os sintomas mórbidos vão desanuviando-se. E, lentamente, a tristeza no trato da memória da perda passa a dar lugar à lembranças agradáveis e relação ao ente perdido e este ocupa então um outro lugar na escala dos sentimentos com menos percepção dolorosa. Assim é o normal.
Quanto ao luto patológico, diz-se daquele estado mórbido que ganha contornos magnificados, algumas vezes sem a depressão explícita, mas com grande repercussão emocional e física, inclusive chegando o enlutado patológico ao extremo de atentar contra a vida; são suicídios ou tentativas ocorridas na vigência de estado de luto recente ou não, mas mal resolvido. Ou mesmo, o desenvolvimento de patologias físicas adquiridas após uma perda grave: diabetes, hipetensão arterial, enfarto do miocárdio, formas de câncer e qualquer outro padecimento físico adquirido por luto mal resolvido, em nível subconsciente.
Além do luto, este como uma forma extrema de depressão transitória, outras circunstâncias ambientais e adventícias podem proporcionar uma vivência similar. Situações comuns do dia-a-dia, como a derrota de seu time do coração, o insucesso em um exame vestibular ou outro concuros importante, um acidente com danos materiais com seu carro novo, uma traição afetiva, um divórcio, um arrombamento de casa, a perda de um emprego ou qualquer outra importante frustração de expectativas, podem exercer efeito cumulativo, com o mesmo efeito de perdas afetivas e influir em um estado depressivo. E se houver predisposição, na dependência de caracteres individuais, desenvolver a enfermidade com um caráter que chamamos de exógeno, por vir de uma origem externa. Dentro desta linha, se quisermos poderemos chamar a depressão genética de constitucional ou endógena; ou propriamante de depressão-doença.
Mas, nem sempre a depressão apresenta-se sob a forma clássica e com seus sintomas mórbidos conhecidos. Algumas pessoas passam uma vida inteira doentes sem que se faça um diagnóstico e sem que elas dêem-se conta de que aquilo que se traduz em conformidade com a infelicidade e uma vida de desmotivação, uma verdadeira coleção de insucessos e deseperança, na verdade, é uma depressão não clássica que chamamos de "doença depressiva mascarada". Pessoas assim acometidas apresentam sintomas crônicos nebulosos, como perda de memória, dificuldade de concentração, tristeza, irritabilidade, perda do impulso sexual, distúrbios de sono, modificação do apetite, sensação de sentir-se inadequada, astenia, agitação psicomotora, desesperança, dores crônicas jamais diagnosticadas em sua origem e de difícil tratamento, além de hipocondria e que transformam o ato de viver em carregar a vida como se fosse um peso desconfortável. Estas podem ser, e com freqüência o são, pessoas deprimidas de forma velada, às quais os médicos, generalistas ou não, deverão estar atentos, pois se não tratarem o estado emcional junto aos sintomas e às doenças clínicas concomitantes, jamais curarão seus pacientes. Até porque, estas pessoas, em busca de conforto e solução, migram por diferentes médicos em busca de um socorro que não atentam qual exatamente é ou qual o verdadeiro alvo, no caso, a depressão velada.
Por fim, é necessário acrescentar-se que a neurociência moderna prorporciona vasto conheciemnto sobre a biopatologia da depressão. Áreas do cérebro são anatomicamente envolvidas no seu disfuncionamento, como a cortex anteroinferior e os núcleos da base, onde se formam as emoções. Doenças físicas, como os acidentes vasculares cerebrais com lesões anteriores no hemisfério direito, bem como a enfermidade de Parkinson, relacionam-se com freqüência a esta patologia do humor e do afeto.
Além do quê, existe uma bioquímica, cuja disfunção está bem esclarecida nesta entidade, com deficiência de função das substâncias neurotransmissoras.
Por isso, além do tratamento psicológico e psiquiátrico da entidade, torna-se tão claro o auxílio da reposição medicamentosa no tratamento isolado ou coadjuvante, com freqüente sucesso.

sábado, 31 de maio de 2008

Transferência de vida

Transferência de vida

Há mais de 2 anos atrás, em afortunada oportunidade, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul organizou e patrocinou, através de especialistas da área, um Simpósio Nacional de Células Tronco. Ocasião em que os numerosos assistentes, que lotaram as dependências de seu salão de atos, puderam observar duas conclusões surpreendentes: o estágio avançado em que se encontrava o uso terapêutico das diferentes células desta linhagem primitiva, também em nosso meio, bem como as excelentes perspectivas sobre sua expansão futura. E a convicta posição da religião católica, contrária às pesquisas com células tronco embrionárias.
Defendia a religião, através de seus representantes, que um embrião desde a sua concepção e de sua primeira multiplicação celular, já tem vida e identidade genética; que mesmo congelado por mais de três anos e desprezados - e até esquecidos - pelos seus autores biológicos, ele tem vida em potencial, sendo portanto intocável e inviolável, se não que para sua finalidade primária e única, evoluir para a complementação da vida. Nesse particular, de lá para cá, nada mudou. Mas, será que existe uma alma embrionária, ela, a arqui-essência da vida na visão católica. Será?
Será que uma tela, pincéis, bisnagas de tinta e a presença inerte do artista se traduzem, potencialmente, em uma obra prima, por si só? Será que a vida do embrião não lhe foi transferida desde os espermatozóides e do óvulo - ou óvulos, que também são seres vivos? E que os primeiros, morrem aos milhões, contribuindo apenas com enzimas que darão redenção a um único a atingir o estágio seguinte de vida, a fecundação?. Será a natureza anti-ética neste proceder? Ou seja, a morte de tantos espermatozóides vivos e guerreiros? E será a ética imutável? Ou a ética, necessária e indiscutível, acompanha apenas os fatos consumados e é criada à reboque destes? Ou será que a alma não só se instala com a consciência humana e com ela evolui e cresce, como uma entidade independente da vida orgânica, como na neurociência já existem indícios? Ou como acredita o espiritismo, ciência, filosofia e religião, por exemplo.
Até a alguns anos atrás, como no Simpósio também foi abordado, morte significava a parada dos batimentos cardíacos e dos movimentos respiratórios; hoje, com o inequívoco diagnóstico de morte cerebral e os recursos da ciência, um morto em potencial ainda é capaz de transferir vida e qualidade dela a muitas pessoas ao mesmo tempo. Porque? Por que o conceito de vida mudou, mudando também a ética que o regia. E mudou o tempo em sua impermanência dos fatos e suas conseqüências.
No contraditório à posição convicta da Igreja, como pode não ser possível enxergar que a ciência de hoje - muito longe dos tempos em que Copérnico teve que omitir seus conhecimentos durante toda uma vida, em que Galileu foi condenado por acreditar em um óbvio conhecimento novo, enquanto bruxas eram massacradas - é a mesma: a surpreendente e inovadora ciência, mas muito mais sábia!? Como, além dos antolhos, não enxergar que a manipulação dos embriões com a finalidade de cura de múltiplas enfermidades, apenas redireciona e transfere suas vidas potenciais a muitos condenados à morte!?
Como o assunto é momentoso, face à posição animadora do Superior Tribunal Federal ao liberar as pesquisas, até então entravadas, sob os protestos das entidades católicas, há o que se refletir. Primeiro, comemorar-se as novas perspectivas que a ciência adquiriu de forma legal de promover a vida ou a melhoria da qualidade dessa para uma infinidade de pacientes. O que virá a ocorrer aos poucos; imagina-se que dentro de 10 anos teremos disponíveis esses avanços a um público mais universalizado. Segundo, se nada mudou na opinião da Igreja e como não há mais Inquisição nos moldes da Idade Média, podemos perceber que ela própria, a Igreja, está acendendo suas próprias fogueiras e imolando-se. Pergunta-se: nesses mais de 2 anos de posição inarredável, quantos fiéis terá ganho a religião católica com sua opinião contrária à transferência de vida, via pesquisa com células tronco embrionárias, e quantos fiéis abandonaram seus bancos, pelo mesmo motivo?

terça-feira, 22 de abril de 2008

Neurologia sexual

A ciência, longe de qualquer outra atividade do intelecto humano, por suas características de seriedade em métodos de avaliação, tendo se voltado ao homem como um fim, acabou por tornar-se o maior aliado e amigo deste. E, por sua fidelidade na busca da causa e do efeito nos fenômenos examinados, quase sempre comprovados às custas de reiterados experimentos, tornou-se a maior aliada da verdade. Exemplo disto é o elevado número de mistérios que a medicina forense, p. ex., tem transformado em fatos irrefutáveis; inclusive livrando inocentes da condenação à morte.
A neurociência, encarregada das pesquisas na área do sistema nervoso mundo afora, é um ramo que demanda grande somas para sua atividade; é, talvez, o ramo da ciência que maior volume de conhecimento produza, desvendando o quanto ainda não sabemos sobre o tema; e que é muito.
Fruto desta área de pesquisa, eis uma descoberta interessante que lhes passo a seguir e que é do desconhecimento do grande público.
Ao ser completada a formação dos neurônios, lá pelo fim do quinto mês de gestação, poresse mesmo tempo formam-se as glândulas encarregadas da indução sexual, ou as gônadas: testículos nos fetos homens e ovários nos fetos mulheres. Imediatamente, elas passam a secretar seus hormônios correspondentes, induzindo a formação dos caracteres genitais primários de cada sexo. Mas também influenciando em parte na formação do tecido nervoso. A gônada masculina, p.ex., irá influenciar na disposição de alguns neurônios em sua maturação dentro do cérebro, em especial no território de uma estrutura chamada hipotálamo, dando-lhes um posicionamento tal para que o cérebro de um indivíduo masculino tenha, também, comportamento e atos masculinos, além de um pensamento característico de homem. Com o cérebro feminino será a mesma coisa.
É fácil notar-se o resultado destas influências, pois são conhecidos pensamentos, atitudes e comportamentos como típicos do homem ou da mulher. No caso delas, por exemplo, note-se a intuição, algumas aptidões e outras maneiras peculiares de lidar com vida, com um gestual peculiar, sempre de forma muito distinta do que faz o homem em situações iguais. Usando, para tal, funções cerebrais cujo desempenho foi orientado pela influência hormonal do sexo original na vida ainda embrionária. Esta influência hormonal das gônadas sobre o cérebro é mais um recurso da natureza em sua perfeição, para que venha a funcionar um cérebro feminino em um corpo feminino e nos machos a mesma coisa.
Mas cabe aqui uma consideração, a qual interessa a uma porção considerável da população, as pessoas homossexuais. Pode haver falhas neste sistema endócrino-tecidual acima descrito? Se muitas alterações congênitas ocorrem em outras áreas do corpo humano, é possível supor-se que neste sistema também aconteça. Sabe-se que as gônadas masculinas secretam também pequenas porções de hormônios femininos, o mesmo ocorrendo com as gônadas femininas, que secretam pequenas porções de hormônios masculinos. Assim, um estímulo errôneo, com inversão de influência sobre o tecido nervoso na formação intrauterina, com maior influência do hormônio feminino no feto homem e do hormônio masculino no feto mulher, explicaria a homossexualidade. Ou mesmo, sobre homens assumidos como tais, por força ambiental, que se sentem mulher ou o contrário.